Grão-Priorado de Portugal da

 Ordem Militar e Hospitalar de São Lázaro de Jerusalém

 

 

O primeiro registo escrito referente a uma gafaria em Portugal, remonta aos meados do século XII, mandada edificar pela Rainha Dona Mafalda de Saboia, “junto á ponte de Canavezes”.

 

Relatada em vários livros como “o Hospital de São Lázaro”, tinha a mesma semelhança estrutural da sede da Ordem em Jerusalém, constituída também por uma Albergaria.

 

Ao longo dos seculos esta gafaria portuguesa, assumiu as suas responsabilidades com grande dedicação apesar das dificuldades inerentes á época, as quais estão expressas em vários livros como o de António de Vasconcelos, op. Cit. Págs. 78, 85 e 86, onde se pode ler “Ordem de S. Lázaro”, ou então a nomeação de João Guedes Pinto de Vasconcellos para seu administrador, nomeado a 29 de Julho de 1750 por alvará d´El-Rei Dom João V (Chancelaria de Dom João V liv. 121, fl. 24), etc.

 

Não tornando estas linhas numa extensiva referência a todos os factos históricos dos séculos passados, e aproximando-nos dos tempos mais recentes, foram publicadas um conjunto de obras difundidas em Portugal, as quais vieram dinamizar o espirito da Ordem no nosso país, como a de Paul Bertrand “História dos Cavaleiros e Hospitalares de S. Lázaro” de 1927, ou “A Ordem de S. Lázaro no Oriente, seu passado e seu presente”, obra esta que recebeu a Benção Especial de Sua Santidade. Todas as referências que possamos transcrever para este texto, não permite realçar a publicada em 1932 pelo Grão-Priorado de Portugal da Ordem Militar e Hospitalar de São Lázaro “Atavis et Armis” (uma versão portuguesa da publicada pelo Conde Charles Otzemberger-Detaille, edição da Academia Tiberiana que fundada em 1813 e que em 1936 incorporou a Real Academia de Itália). Esta publicação, que descreve resumidamente a história da Ordem de São Lázaro, a sua orgânica, estatutos, e alguns dos Cavaleiros da época, como S.A.I.R. o Arquiduque António de Habsbourg-Lorraine; S.A.R. o Dom Alberto de Bourbon – Duque de Santa Helena; S.A.R. o Príncipe Frederico de Hohenzollern (irmão da mulher do ultimo Rei de Portugal - Dom Manuel II), o Duque de Hornachuelos, o Duque de Cubas, o Marquês de Casa Real, o Cardeal O´Connel, o Cardeal Dougherty, o Cardeal Lienart, etc, etc.

 

No entanto nesta publicação, as palavras do Referendário da Ordem em Portugal – Alfredo Vítor de Salema Vaz, são um dos pontos mais importantes desse trabalho, relembrando a todos os Cavaleiros e Damas Lazaristas, a necessária acção humanitária para uma causa que desde o século XII esta instituição abraçava, os leprosos “… é indispensável e torna-se cada vez mais urgente, a construção dum leprosário em Portugal, onde esses bem desgraçados enfermos sejam recolhidos e tratados, como se usa fazer em todos os países civilizados, neste século XX em que vivemos. Diàriamente, corações bondosos, deixam legados e, mesmo em vida, contribuem para fundações de asilos, creches, hospitais, etc; e ninguém se lembra dos leprosos! Porquê? Porque os leprosos são poucos? Enganam-se redondamente; as estatísticas aterrorizam e aumentarão dia a dia se o mal não fôr combatido. Porque os leprosos não aparecem, e … quem não aparece esquece? Ai, deles, que vivem escorraçados e sequestrados do mundo, como indesejáveis! Esta miséria humana, nunca é lembrada pelas Almas pias. Pois é para essas mesmas Almas, propensas ao Bem, que nós, em nome de S. Alteza e da Ordem Militar e Hospitalar de S. Lázaro de Jerusalém, dirigimos o nosso «toque a reünir» e pedimos que se lembre dos leprosos quando quiserem fazer as suas esmolas ou legados… a Ordem que temos a honra de representar, não é apenas uma mercê honorifica; é também uma milícia activa. Premeia o mérito, é certo, sob todos os aspectos que êle se manifeste (moral, intelectual, artístico, politico e social), mas visa também à protecção dos leprosos. Sabemos que estamos falando ao bom coração português e, por isso, esperamos confiadamente em que, num futuro bem próximo, possamos levar a S. Alteza e Lugar-Tenente da Ordem de S. Lázaro, a boa nova da construção duma gafaria em Portugal, segundo as exigências modernas. Mas, emquanto êste sonho se não realiza, que as vossas esmolas sirvam, ao menos, para suavizar moralmente quem da medicina não pode esperar alívio fácil. E desta forma, os Cavaleiros de S. Lázaro aumentarão; e chagaremos ao dia em que, as suas insígnias não sejam apenas vulgares ostentações da vaidade humana, mas que mantenham também pràticamente viva, a secular milícia: duplo timbre de honor...”

 

Este período em Portugal em que Alfredo Vítor de Salema Vaz assumiu as funções de Referendário da Ordem em Portugal, trouxe para São Lázaro figuras que fazem parte integrante da história deste país, tais como o General Carmona – Presidente da República (condecorou em 1940 numa visita oficial do 45º Grão-Mestre D. Francisco de Bourbon – Duque de Sevilha, com a Grã-Cruz da Ordem de Avis - entre aqui), Sua Eminência o Cardial Patriarca de Lisboa Dom Manuel Cerejeira, o Dr. Honorato Monteiro – Chefe do Protocolo da Sé de Lisboa (exerceu as funções de Capelão do Grão-Priorado), o Prof. Dr. Gustavo Cordeiro Ramos – antigo Ministro da Instrução Pública, o Prof. Dr. Mário de Figueiredo – Prof. Catedrático da Universidade de Coimbra e antigo Ministro da Ministro da Justiça, o Prof. Dr. Diogo Pacheco de Amorim – Prof. Catedrático na Universidade de Coimbra e Deputado na I e II República, entre muitos outros.

 

Voltando a dar um salto no tempo, e penetrando nos anos setenta, o Grão-Priorado de Portugal, contando com a colaboração do Padre Lencastre e Silva, reabre ao culto a Sede Espiritual da Ordem (localizada em Sintra – S. Pedro de Penaferrim), a Capela de São Lázaro, que fica anexa á antiga gafaria fundada pela Rainha Dona Leonor.

 

Sem qualquer dúvida que este período recente da história do Grão-Priorado de Portugal da Ordem Militar e Hospitalar de São Lázaro de Jerusalém, é muito marcante, trazendo para esta família Lazarista grandes personalidades portuguesas, passando por Ministros, Embaixadores de carreira, Professores Catedráticos, a titulares da alta nobreza portuguesa.

 

O ano 2005 é um dos anos historicamente mais significativos para o Grão-Priorado de Portugal, tendo tido a oportunidade de receber a visita do 48º Grão-Mestre da Ordem Militar de São Lázaro de Jerusalém, D. Francisco de Bourbon – Duque de Sevilha (no Castelo de Palmela) para uma Solene Investidura de novos Cavaleiros e Damas, contando esta iniciativa, com a presença de vários dignatários de outras Ordens.

 

Sem qualquer dúvida que visita do 48º Grão-Mestre a Portugal foi um acontecimento de grande simbolismo e significado para todos os Lazarista, a qual se veio a repetir por ocasião do Capitulo do Grão-Priorado de Portugal em 2009 (no Convento do Cardais), que contou com a presença do actual 49º Grão-Mestre, D. Carlos de Bourbon – Marquês de Almazán.

 

Em 2010 a cidade de Lisboa acolheu no Hotel Pestana Palace (conhecido como Palácio de Valle Flor, mandado edificar nos finais do Século XIX pelo Marquês de Valle Flor), uma cerimónia litúrgica do Grão-Priorado de Portugal que teve as presenças de membros Lazarista como o Chefe da Casa Real da Geórgia - S.A.R. David Bagrationi, S.A.I. o Príncipe Ermias Selassie – Presidente do Conselho da Coroa da Casa Imperial da Etiópia e S.A.I.R. Andrés Salvador de Habsbourg Lorraine, Arquiduque e Príncipe da Áustria, Hungria, Boémia e Toscania (que em 2012 voltou a estar presente numa Investidura que se realizou na cidade do Porto).

 

Muitas vezes as histórias repetem-se, os momentos revivem-se, e o Grão-Priorado de Portugal reescreve hoje em dia o inicio deste texto, voltando a ter a sua sede administrativa e espiritual em “Canavezes” no norte de Portugal.

 

No entanto, as antigas acções dos Lazaristas em gafarias, foram substituídas e adaptadas ás circunstâncias que o mundo moderno carece, sendo-nos solicitado as mais variadas formas de intervenção nesta nossa sociedade repleta de necessidades, com o objectivo de contribuirmos para uma melhor qualidade de vida a pessoas que das mais variadas razões necessitam de nós. É para essas pessoas que existe a Ordem Militar e Hospitalar de São Lázaro de Jerusalém, é com essas pessoas que escrevemos a nossa história, e é dessa forma que cumprimos o compromisso que assumimos quando nos tornamos Lazaristas.

 

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